De: Luis Paulo de Almeida Maeda paulomaeda1@hotmail.com
Enviado: terça-feira, 1 de maio de 2007 14:36:14
Para: (não sei se posso divulgar)@yahoo.com.br
Assunto: sobre psicose
Professor, é o Luis do 4ºEAC,
fiquei lendo e re-lendo o texto da Sarah Kane sem parar ontem e fiz alguns comentários
gostaria de te passar um pouco minhas angústias para que me ajude um pouco
Como analisar um texto de forma "clássica", onde tudo é abstrato, subjetivo? Não existe um onde (teria, talvez, mas eu destruiria a idéia de fragmentos), colocando planos - o plano-a beira da morte, o plano-hospital/médico(s), plano-vida; é uma mistura de fragmentos - não existe um personagem específico senão elementos da própria autora, é poético, é prosa, poesia, diálogo, desenho, enigmas...
Não existe tempo, são 4h48, é limitante (uma desculpa) colocar como um último suspiro antes da morte? não caímos no clichê? "tudo se passa na cabeça dela!"? não sei se quero uma "valsa nº6".
Quando leio um texto contemporâneo como esse percebo que ele tenta se libertar de qualquer análise específica, nas mãos de um encenador ele analisa essas metáforas de um texto poético e coloca sua visão subjetiva em cima disso - mesmo a questão das metáforas, em certos trechos podem deixar de lado a idéia de metáfora.
4h48 é, por pesquisa, o horário no qual as pessoas mais se matam - temos um dado claro - o tema é suicídio (posso colocar desde já minha metáfora: a vida é suicida por si só)
O texto é dividido em 24 momentos, que às vezes são ligados, às vezes se justapõe, um palimpsesto dramatúrgico, analiso cada um desses momento explicitanto a metáfora? mesmo a interpretação de metáforas já nasce pré-concebida.
Suicídio, amor, angústia, depressão, médicos, remédios, auto-indulgência, esquizofrenia...
Penso em exercícios que busquem alguns desses estados, essas sensações, dessas sinestesias nascem as ações criadas pela atriz e depois trabalhadas, mas não como Meyerhold - dá ação mecânica nasce o signo, a representação, mas que do alto estado interno cause uma reação muscular, corporal, livre.
Cegueira temporária, desequilíbrio corporal, perda do controle dos sentidos...
primeiro criando um mapa de estados, daí com as reações da atriz um mapa de ações e com o texto, qual estado o texto traz? qual a profundida isso pode alcançar?
desculpe mandar minhas dores de cabeça, tenho minhas dores de cabeça em certos momentos durante a aula querendo descobrir o verbo-chave, a ação específica, mas em momento como Shakespeare, é tenho pensamento que é muito difícil criar Shakespeare sem o texto, aquele texto me dá liberdade para encontrar as ações, está lá - lembro de um grande amigo, mestre e ator da velha geração comentando sobre um certo dia em que encenava o mercador de veneza em paris e fazia Shylock e num instante ele parou e pensou: "o que estou fazendo? para quê tantas coisas? é um texto e esse texto só é necessário que ele seja dito, está tudo aí" ele teve um "crise" e só voltou a fazer teatro agora; eu posso falar que brinquei como Iago, mas não que fiz Shakespeare, é uma conversa enorme e dificílima, acredito que tenho muitas coisas a aprender, principalmente contigo, eu adoro a experiência de trabalhar com encenadores diferentes, mas como podemos encontrar uma mistura, onde eu possa utilizar os teus elementos sem deixar de lado os meus elementos, que estou criando agora como encenador, trabalho que estou engatinhando ainda mas que quero começar a criar meu próprio estilo de direção, não só o que aprendi com "mestres" anteriores...
desde já
obrigado
Paulo Maeda
domingo, 27 de maio de 2007
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